Familiares de presos no Tarrafal fazem pedidos a Cabo Verde e à UNESCO

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Acarta contém quatro pedidos: o reconhecimento "da utilização do Campo do Tarrafal entre dezembro de 1974 e julho de 1975", a sua integração "no discurso museológico e científico", a inclusão "da memória, testemunhos e identificação dos presos" e "a garantia de que qualquer apoio, validação ou reconhecimento internacional observe integralmente os princípios da verdade histórica, da integridade patrimonial e da memória inclusiva".
O processo de candidatura do campo e atual museu a património mundial está a decorrer junto da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), destinatária da carta a par do Governo e da Presidência cabo-verdiana.
"Não se pretende reescrever a história nem diminuir a relevância das anteriores fases do Campo do Tarrafal", nomeadamente enquanto "lugar de memória da repressão colonial e da resistência antifascista", mas pretende-se que "a história seja contada por inteiro", indica o documento subscrito por 73 familiares de 15 dos 58 presos naquele período.
Na fase de transição do regime colonial português para a independência de Cabo Verde –declarada a 05 de julho de 1975 – "dezenas de cidadãos cabo-verdianos" foram detidos e enviados para o Tarrafal, sem condenação judicial e, em muitos casos, sem acusação formalmente comunicada.
"Os testemunhos recolhidos descrevem detenções motivadas por divergências políticas, suspeitas de oposição ao processo político então em curso e alegadas ligações a movimentos considerados adversários", lê-se no documento, numa situação que deixou marcas até hoje.
Nem todas as forças políticas cabo-verdianas concordavam com o processo de transferência do poder para o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) nem com o projeto de unidade entre os dois países, defendido pelo partido, que acabou por não se concretizar.
"Sou filha de um dos presos políticos. Sou a filha mais nova de Rufino José Silva", que fez parte de um último grupo a ser libertado, dias depois da independência, contou à Lusa Vera Mendes, subscritora da carta e dinamizadora da iniciativa.
Ao saírem do Tarrafal, em julho de 1975, "julgavam que iam cada um para a sua ilha – o meu pai era da ilha do Fogo".
No entanto, "no caso deste grupo, vieram sem nada para Portugal e foram deixados no aeroporto. E cada um teve de se reconstruir, a si e às suas famílias", disse sobre a deportação do pai, após a qual a mãe e quatro irmãos se lhe juntaram em Lisboa – onde Vera nasceu, em 1979.
Leu a escrita do pai, escutou histórias, incluindo de quem se esforçou para obter documentos oficiais que comprovassem que nunca colaboraram com o regime fascista, para limpar as acusações de que eram alvo em Cabo Verde.
Conseguiram-no junto dos Serviços de Coordenação da Extinção da PIDE, como descreveu à Lusa Sandra Inês Cruz, há um ano, no lançamento de "Tarrafal, 1975 - O Campo do Silêncio", livro que investiga estes pontos cegos da prisão.
"Isso fará também parte da história de cada uma das famílias e todos nós temos vivências diferentes", contou Vera.
A omissão do período de 1974-1975 na portaria que aprovou o documento fundador do museu, publicada em março, e o processo de candidatura à UNESCO levaram Vera Mendes a promover a carta.
"Achei que era um momento para não ficar calada e, se calhar, levar isto a uma outra esfera", disse.
Entre os presos havia "intelectuais, agricultores", pessoas de "diferentes zonas" de Cabo Verde que por terem "um pensamento que não se alinhava com o que estava a ser desenhado ou desejado para o futuro da democracia de Cabo Verde, foram presos".
"O meu pai queria eleições. Fazia parte da União dos Povos das Ilhas de Cabo Verde (UPICV) e queriam escutar o povo", referiu.
"Aqui, não é uma questão política (…). A história da democracia e da independência de Cabo Verde está incompleta. Há uma omissão. E o meu objetivo e das famílias que assinaram a carta é este: assinalar que há uma omissão e que tem de ser corrigida", precisou.
A carta seguiu em junho (entretanto surgiram mais familiares interessados em subscrevê-la), remetida à UNESCO, ao primeiro-ministro e ao Presidente de Cabo Verde.
Vera Mendes já conversou este ano com técnicos do Instituto do Património Cultural (IPC) de Cabo Verde em eventos dedicados ao campo e à candidatura à UNESCO, referindo que "estavam conscientes" da terceira fase, o que a leva a ter algum otimismo.
A Lusa tentou obter esclarecimentos por parte do IPC, mas ainda não obteve respostas.
"Que um dia os netos, bisnetos possam visitar o Tarrafal e ver a fotografia dos seus avós ou bisavós, porque eles também fazem parte da história de Cabo Verde e não podem ser saneados. Esse é o objetivo", concluiu.
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- Published
- September 27, 2026
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- Expresso das Ilhas
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- Expresso das Ilhas